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Por blaze crash

11/12/2023 04h27 Atualizado 11/12/2023

Quem � a vice de Milei, que defende revisar indeniza��es da ditadura na Argentina �
blaze crash
: GETTY IMAGES

A vice-presidente de Javier Milei, Victoria Villarruel, prometeu revisar a atual pol�tica de mem�ria e direitos humanos do pa�s, que indenizou milhares de v�timas da repress�o provocada pelo Estado durante a �ltima ditadura militar (1976-1983).

A proposta ainda n�o foi detalhada, mas a insist�ncia da advogada de 48 anos nesta pauta representa uma guinada na pol�tica da Argentina, onde at� ent�o, de acordo com analistas, havia um relativo consenso na elite pol�tica sobre como tratar o regime comandado por militares.

O pa�s costuma ser elogiado por especialistas internacionais em direitos humanos e historiadores por ter levado os ditadores militares ao banco dos r�us, al�m de ter julgado e punido torturadores.

Perto do segundo turno das elei��es, Villarruel ainda disse que a Argentina � um pa�s "devastado" e apontou: "Como voc� acha que poder� resolver isso [a situa��o do pa�s] se n�o for com uma tirania?"

Em setembro, um dos maiores centros militares de tortura daquele per�odo, a Esma � j� transformado no Espa�o Mem�ria e Direitos Humanos na d�cada passada �, foi declarado Patrim�nio Mundial da Unesco.

No entanto, para a vice de Milei, essa pol�tica implementada n�o � correta. Villaruel tem dito que defende �a mem�ria completa�, que, segundo ela, deve considerar que havia "uma guerra" que colocava militares e for�as de seguran�a de um lado e, do outro, guerrilheiros de esquerda a quem chama de "terroristas".

Em 2006, ela criou o Centro de Estudos Legais sobre o Terrorismo e suas V�timas (Celtyv) para buscar repara��o para as v�timas dos grupos Montoneros e Ex�rcito Revolucion�rio do Povo (ERP) � organiza��es guerrilheiras argentinas que agiram a partir do in�cio dos anos setenta, antes do golpe militar de 1976. Os Montoneros eram de raiz peronista, ligada ao movimento criado pelo ex-presidente argentino Juan Domingo Per�n; j� o ERP era uma organiza��o de orienta��o trotskista.

Filha, sobrinha e neta de militares, Vicky, como a chamam seus apoiadores, tem dito que a Argentina �escondeu�blaze crashhist�ria.

�N�s estamos conseguindo abordar um mont�o de ideias que eram impens�veis, que eram intoc�veis, que n�o podiam ser questionadas�, disse Villarruel, j� na reta final da campanha do primeiro turno, em entrevista � r�dio Cadena 3, da prov�ncia de C�rdoba.

O discurso de Villarruel � recha�ado por defensores de direitos humanos e ativistas que veem nele negacionismo hist�rico e falsa simetria ao comparar o uso do Estado para reprimir e matar inimigos pol�ticos durante a ditadura e atividades guerrilheiras no per�odo.

Analistas ouvidos pela blaze crash News Brasil afirmam que a proposta de repara��o para v�timas de atos guerrilheiros � leg�tima, mas tamb�m dizem ver no discurso uma �defesa impl�cita� da ditadura e �um risco de retrocesso� na pol�tica de direitos humanos.

De plataforma pol�tica a tema de campanha

Villarruel decidiu criar em 2006blaze crashONG para atender v�timas de atos dos grupos armados de esquerda nos anos 70. Na �poca, o governo de N�stor Kirchner tinha como bandeira a defesa da reabertura das investiga��es sobre os crimes cometidos durante a ditadura militar.

Para isso, Kirchner, que consolidava ali um bra�o pr�prio do peronismo, contou com o respaldo das entidades de direitos humanos M�es e Av�s da Pra�a de Maio � reconhecidas internacionalmente pela busca de seus filhos e netos, sequestrados na ditadura.

A vice de Milei seguiu sem participa��o direta na pol�tica partid�ria at� se juntar a seu companheiro de chapa. Victoria Villarruel s� come�ou a ficar conhecida nacionalmente ao ser empossada como deputada federal em dezembro de 2023.

�Pelas v�timas do terrorismo�, disse ela, ao microfone, na cerim�nia de posse no Congresso Nacional.

A declara��o gerou cr�ticas abertas do atual governo do presidente Alberto Fern�ndez e deblaze crashvice-presidente, a ex-mandat�ria Cristina Kirchner.

�Ela [Victoria Villarruel] reinvindica o terrorismo de Estado e nega a ditadura militar. E, n�s, argentinos, temos um pacto forte contra a ditadura�, disse, na ocasi�o, o ministro da Defesa, Jorge Taiana.

Naquele dezembro de 2023, Victoria Villarruel e Javier Milei inauguravam a pequena bancada da A Liberdade Avan�a (LLA), movimento pelo qual agora venceram as elei��es presidenciais ap�s um crescimento mete�rico.

Para a analista de opini�o p�blica da consultoria Tres Punto Zero e professora da Universidade de Buenos Aires Shila Vilker, Villarruel e Milei conseguiram colocar como tema na campanha presidencial a mem�ria da ditadura e a viol�ncia pol�tica da d�cada de 1970.

�Foi um assunto que apareceu de forma inesperada na campanha", afirma ela. "Fico com a impress�o que, por tr�s da demanda leg�tima por parte das v�timas das organiza��es armadas, isso signifique uma defesa impl�cita da ditadura�, diz Vilker.

Esta defesa, afirma a analista, n�o poderia ser feita �de forma expl�cita� porque na Argentina existe um �consenso social, acad�mico e judicial em rela��o ao que foi o terrorismo de Estado, dos crimes contra a humanidade, da hist�ria argentina�.

Para ela, o desinteresse pela democracia entre parte dos mais jovens, a crise econ�mica e os discursos da A Liberdade Avan�a podem ser �um risco de retrocesso� para a pol�tica de direitos humanos e para a condena��o da ditadura.

�Entre os que t�m 16 e 21 anos, seis de cada dez valorizam a democracia. Uma maioria, sem d�vida. Mas existem quatro de cada dez que n�o t�m opini�o formada, ou n�o est�o interessados ou dizem ter quest�es mais urgentes, como a economia�, disse ela.

Autor de uma s�rie de livros sobre os anos 1970 na Argentina, o jornalista Ceferino Reato descreve Villarruel como uma advogada �muito conservadora, cat�lica, com moral de ultradireita". Ele diz que ela sempre trabalhou em nome das v�timas dos grupos armados de esquerda e que s� passou a ganhar espa�o nos meios de comunica��o a partir do seu v�nculo com Milei.

�Acho que ela se espelha nas pr�prias organiza��es de direitos humanos que defendem as v�timas dos militares e da repress�o, da ditadura", afirma Reato, cujo livro mais recente se chama Masacre en el Comedor ("Massacre no Refeit�rio", em tradu��o livre), que relata um atentado a bomba do grupo do guerrilheiro Montonero, cem dias ap�s o inicio da ditadura.

"Ela j� disse, por exemplo, que quer implementar leis para indenizar as v�timas da guerrilha e para criar um monumento que as recorde. Se vai conseguir ou n�o, n�o sabemos�, seguiu.

Villarruel afirma que "existem 1.094 v�timas do terrorismo dos anos 1970" que "jamais foram reconhecidas pelo Estado�. De acordo com Reato, que conhece o tema por causa das pesquisas e entrevistas que realizou para seus livros, os familiares destes mortos �nunca receberam nenhuma indeniza��o�.

No portal oficial Registro Unificado de V�timas do Terrorismo de Estado (Ruvte) informa-se, porblaze crashvez, que o programa re�ne e atualiza dados sobre �as v�timas da repress�o ilegal do Estado argentino�, sem refer�ncia �s v�timas da guerrilha.

Procurada pela blaze crash News Brasil, Villarruel n�o atendeu aos pedidos de entrevista. A reportagem tamb�m buscou sem sucesso a legisladora Luc�a Elena Montenegro, que � aliada de Villarruel na Legislatura de Buenos Aires.

N�mero de v�timas da ditadura

Villarruel tem sido questionada por ter ido visitar o ex-ditador Jorge Videla na cadeia, antes deblaze crashmorte em 2013. Em resposta, ela diz que foi entrevist�-lo para seus livros hist�ricos sobre os anos 1970.

A vice de Milei n�o nega que foram cometidos crimes durante a ditadura. Quando perguntada em uma entrevista ao canal La Naci�n+ se negava o que aconteceu durante a ditadura militar, a vice de Milei respondeu: �N�o�. E quando questionada se houve crimes contra os direitos humanos na ditadura, respondeu: �Sim�.

Mas ela tem repetido que, como vice-presidente, impulsionar� uma revis�o nas indeniza��es concedidas pelo Estado �s v�timas que foram alvo da repress�o do Estado.

A advogada n�o fala em n�meros, mas em seus discursos cita que guerrilheiros mortos "em combate" ou militantes que ela disse que se mataram na cadeia em lealdade a seus movimentos n�o deveriam receber dinheiro do Estado.

As ideias de Villarruel tamb�m ecoam nas falas do l�der da chapa. Em um dos debates presidenciais, h� tr�s semanas, Javier Milei questionou a quantidade de v�timas sequestradas ("desaparecidos") pela repress�o organizada pela ditadura.

�Estamos absolutamente contra uma vis�o torta da hist�ria. Na nossa opini�o, houve uma guerra nos anos 1970 e, naquela guerra, as for�as do Estado cometeram excessos, mas tamb�m os terroristas dos Montoneros e do ERP mataram gente, colocaram bombas e cometeram crimes contra a humanidade�, disse o candidato libert�rio.

�N�o foram 30 mil desaparecidos. Foram 8.753�, disse em outro momento.

"S�o 30 mil. Nunca mais. Nunca mais", rebateu, depois, o ativista de direitos humanos Adolfo P�rez Esquivel, usando a frase que simboliza o rep�dio � ditadura. Esquivel ganhou o Pr�mio Nobel da Paz em 1980 por denunciar as viola��es de direitos humanos cometidas por regimes militares no continente.

O questionamento da magnitude da repress�o e do n�mero de 30 mil v�timas, usado oficialmente pelo kirchnerismo e pelas organiza��es de direitos humanos como as M�es e Av�s da Pra�a de Maio, n�o � um debate in�dito na Argentina.

Em setembro de 1984, menos de um ano ap�s o retorno da democracia, o ent�o presidente Ra�l Alfons�n recebeu do escritor Ernesto Sabato o relat�rio da Comiss�o Nacional do Desaparecimento de Pessoas (Conadep), que documentou 8.961 pessoas desaparecidas durante o regime militar, de acordo com informa��es dispon�veis da �poca.

A lista nunca foi considerada final, de acordo com historiadores e ativistas, que afirmam que h� outros documentos e testemunhos que falam de um n�mero maior de v�timas.

Um desses documentos � um relat�rio militar argentino enviado aos aliados da ditadura de Augusto Pinochet em 1978, que fala em ao menos 22 mil v�timas. O documento foi obtido pelo jornalista John Dinges e aparece em seu livro Os anos do Condor (Companhia das Letras), que relata a alian�a das ditaduras do Cone Sul para a repress�o.

No mesmo ano, documento da embaixada dos Estados Unidos na Argentina, agora desclassificado, tamb�m fala em ao menos 15 mil v�timas citadas pelos militares argentinos nas conversas com Washington.

O jornalista e escritor Ceferino Reato diz que o n�mero de 30 mil � "uma bandeira, um n�mero simb�lico, um mito".

"O massacre foi de tal magnitude que fica completamente refletido com o n�mero de 7.300 v�timas", diz Reato que, em seus trabalhos, utiliza o n�mero oficial do Registro �nico de V�timas do Terrorismo de Estado (Ruvte), criado com um ampla equipe na �poca do governo da ex-presidente Cristina Kirchner.

Emblaze crashcontabilidade feita a partir do Ruvte, o escritor cita um total de 7.300 v�timas. �O registro � atualizado permanentemente. S�o dados oficiais. Os �ltimos s�o de 2023. � impens�vel falar em 22 mil ou 23 mil pessoas desaparecidas sem que seus familiares os esteja buscando�, afirma Reato.

Entre estas v�timas, segundo entidades de direitos humanos e documentos oficiais, est�o estudantes, professores, trabalhadores, jovens gr�vidas, beb�s que nasceram no cativeiro e foram entregues a fam�lias de militares e pessoas confundidas com supostos guerrilheiros. O m�sico brasileiro da banda de Toquinho e Vinicius, Francisco Ten�rio J�nior, o Tenorinho, foi uma das v�timas nos anos 1970 na Argentina. Ele foi sequestrado, numa esquina movimentada de Buenos Aires, seis dias antes do golpe.

�Seja 30 mil ou 8 mil...O que houve foi uma barb�rie�, disse a ex-senadora Graciela Fern�ndez Meijide, que integrou a Conadep e � m�e de Pablo, jovem que integra a lista de desaparecidos.

A presidente da entidade Av�s da Pra�a de Maio, Estela de Carlotto, repudiou as declara��es de Milei e defendeu o total de 30 mil desaparecidos.

�Ele deu um n�mero com tanta certeza [no debate] que parecia at� que sabia o nome de cada um dos desparecidos�, disse Carlotto.

Apoio de Bulrrich

Villaruel provavelmente n�o ficar� circunscrita � reivindica��o das v�timas de grupos armados de esquerda. O presidente eleito j� disse que pretende colocar sob responsabilidade deblaze crashvice as �reas de Defesa, Seguran�a e Intelig�ncia. Ou seja, no futuro governo Milei, a parlamentar deve responder pelas �reas das For�as Armadas e de seguran�a p�blica, algo que seria novidade no pa�s, segundo especialistas.

Quando perguntado, sobre a possibilidade da libera��o do uso de armas de fogo, Milei responde que esta ser� uma responsabilidade direta de Villaruel. A vice, porblaze crashvez, diz que a legisla��o deve ser respeitada e rebate a acusa��o dos advers�rios de que facilitar� a chegada de armas �s escolas.

�A gest�o de seguran�a dos �ltimos vinte anos fez um esfor�o enorme para demonizar os que usam uniforme e t�m a fun��o, por parte do Estado, de proteger os cidad�os, seus bens eblaze crashliberdade�, disse Villarruel, em uma entrevista ao jornal El Tribuno, da prov�ncia de Salta, na reta final antes do primeiro turno.

Para a analista Shila Vilker, todo o discurso busca captar o voto da �fam�lia militar�.

Neste terreno, a dupla disputava a prefer�ncia do grupo com a candidata da direita mais tradicional Patricia Bullrich, que costuma defender e elogiar as for�as de seguran�a p�blica e ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com pouco mais de 23% dos votos.

Nos debates, Milei chamou Bullrich de �montonera assassina�, pelo fato de ela ter sido guerrilheira nos anos 70. Bullrich negou acusa��o que ele lhe fez de ter colocado bombas "em jardins de inf�ncia" e anunciou que entraria na Justi�a contra ele.

O candidato tamb�m disse, em uma entrevista durante a campanha do primeiro turno, que revisaria a suposta indeniza��o que Bullrich receberia do Estado, referente aos anos 1970, e a chamou de �terrorista�.

Mesmo depois do duro ataque, Milei acenou a Patricia Bullrich logo ap�s o primeiro turno.

Tr�s dias ap�s a derrota, Bullrich declarou apoio ao libert�rio no segundo turno. �Milei conseguiu capitalizar melhor do que n�s o voto, principalmente o dos mais jovens. E nossa proposta � pela mudan�a, o que ele (Milei) passou a representar. H� 20 anos, o kirchnerismo mergulhou a Argentina na decad�ncia e � por isso que defendemos a mudan�a�, disse a candidata.

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